Cancelamento da RightsCon 2026: Um Golpe aos Direitos Digitais e ao Espaço Cívico Global
O cancelamento abrupto da **RightsCon** 2026 na Zâmbia destaca uma tendência preocupante de encolhimento do espaço cívico e crescente hostilidade à livre expressão. Pressões políticas, incluindo supostamente demandas do governo chinês, levaram ao cancelamento do evento, afetando milhares de pesquisadores, jornalistas e ativistas.
Quando governos fecham espaços para diálogo, dissidência e organização coletiva, o dano se estende muito além de um único evento. O cancelamento abrupto da **RightsCon** 2026 — a maior conferência global anual de direitos digitais do mundo — não é apenas uma interrupção logística para milhares de pesquisadores, jornalistas, tecnólogos e ativistas; é parte de um padrão global crescente de encolhimento do espaço cívico e crescente hostilidade à livre expressão e à sociedade civil independente.
### Pressão Política e Demandas
Apenas dias antes do início da conferência, os organizadores anunciaram que a RightsCon não prosseguiria na Zâmbia ou online após a crescente pressão política e demandas que teriam excluído comunidades vulneráveis e restringido discussões. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa da ONU, que estava programado para ocorrer pouco antes da conferência, foi reduzido em vista dos eventos, e sua cerimônia de premiação da liberdade de imprensa foi adiada para uma data posterior.
A RightsCon há muito tempo serve como um dos poucos encontros verdadeiramente globais onde grupos da sociedade civil, organizadores de base, tecnólogos e formuladores de políticas podem se reunir em igualdade de condições para enfrentar alguns dos desafios mais urgentes de direitos humanos da era digital — desde censura e vigilância até interrupções de internet, responsabilidade de plataformas e a segurança de comunidades marginalizadas online. A **Electronic Frontier Foundation (EFF)** tem presença na RightsCon desde sua criação em 2011 e planejava se reunir e aprender com parceiros internacionais e apresentar nosso trabalho durante várias sessões em Lusaka.
### Impacto em Defensores Globais
O cancelamento é especialmente devastador por causa do que a RightsCon representa. Para muitos defensores — particularmente aqueles da maioria global — não é apenas mais uma conferência. É uma oportunidade rara de construir solidariedade entre fronteiras, formar parcerias duradouras, aprender com as experiências de outras regiões, garantir financiamento e apoio para o trabalho local e assegurar que as pessoas mais impactadas pela repressão digital tenham um lugar à mesa. Realizar o evento na África Austral teve um significado particular, prometendo elevar vozes regionais e fortalecer redes locais de direitos digitais.
### Influência do Governo Chinês
O que aconteceu na Zâmbia envia uma mensagem arrepiante. De acordo com os organizadores e vários relatórios, a pressão em torno do evento incluiu demandas do governo chinês para excluir participantes taiwaneses e moderar discussões sobre tópicos politicamente sensíveis. Em um momento em que governos em todo o mundo estão cada vez mais restringindo protestos, visando jornalistas, cortando fundos para o trabalho de direitos humanos, proibindo jovens de comunidades online, censurando discursos e criminalizando atividades da sociedade civil, o cancelamento da RightsCon reflete a erosão mais ampla do espaço democrático online e offline.
### Resposta da Comunidade
Organizações da comunidade de direitos digitais se manifestaram veementemente contra o cancelamento da conferência pelo governo, deixando claro que esses ataques à participação cívica não passarão despercebidos. A **Access Now** descreveu a decisão como evidência do "longo alcance da repressão transnacional que visa a sociedade civil". A resposta da **Index on Censorship** alertou que a medida representa uma escalada perigosa nas tentativas de suprimir o diálogo aberto, enquanto a **IFEX** descreveu corretamente o cancelamento como um golpe não apenas para uma conferência, mas para a liberdade de expressão e de reunião em todos os lugares.
Também nos sentimos encorajados ao ver declarações de membros da comunidade internacional — incluindo **Tabani Moyo**, que falou sobre o impacto na comunidade da África Austral, e o participante taiwanês **Shin Yang**, que enfatizou a importância de preservar espaços onde comunidades marginalizadas possam se organizar e falar com segurança — ressaltando que as tentativas de silenciar a sociedade civil apenas reforçam a importância de defender espaços abertos e globais para organização e debate.
### Seguindo em Frente
Mesmo que este cancelamento represente um sério revés, é importante lembrar que a comunidade de direitos digitais sempre se adaptou sob pressão. Em todo o mundo, defensores continuam a se organizar em ambientes cada vez mais difíceis, encontrando novas maneiras de se conectar, colaborar e resistir à censura e à repressão. Eventos futuros como o **Global Gathering** e o **FIFAfrica** — ambos aos quais a EFF planeja comparecer — reunirão membros da comunidade para lidar com questões difíceis. E, enquanto isso, grupos de todo o mundo estão trabalhando juntos para incorporar perspectivas globais nas regulamentações de plataformas, opor-se a leis de verificação de idade, proteger contra vigilância e combater interrupções de internet, entre muitos outros esforços.
A própria RightsCon surgiu do reconhecimento de que defender os direitos humanos na era digital exige solidariedade internacional — e essa necessidade não desapareceu.
As conversas que deveriam acontecer em Lusaka continuarão em outros lugares: em espaços comunitários, reuniões online, chats criptografados e futuras convenções ainda por vir. Governos podem fechar locais, restringir a participação ou tentar estreitar os limites do discurso aceitável, mas não podem apagar o movimento global que trabalha para defender uma internet livre e aberta.
A RightsCon não acontecerá na Zâmbia, mas permanecemos encorajados e inspirados pela força da comunidade global de direitos digitais, nos solidarizamos com eles e esperamos ver nossos aliados na próxima RightsCon e em outros eventos futuros.